O Boneco de Pano

Muito pouca gente sabe. Tão pouca, que o acontecido passa por mentira. Mas na quadragésima terceira noite, a contar do décimo nono dia depois de segunda feira, numa noite de lua vazia ou em qualquer outro dia tão bom quanto esse a mágica acontece.         Toda a magia do mundo se encontra, se entrelaça e dança. De sua festança nasce um sonho. Ou nada. Ou uma chuva de estrelinhas brilhantes, qualquer coisa assim.

O importante, é que numa dessas ocasiões mágicas, um brilho intenso brilhou suspenso sobre as telhas de uma casa qualquer. Estalou e explodiu, sumindo no ar, como se nunca tivesse sido.

Dentro da casa, entretanto, e entre tantos travesseiros e bonecos que haviam sobre a cama, um deles (um boneco) se moveu.

Moveu-se, e tentou levantar-se de um pulo. Não estando acostumado a levantar-se, nem rápido, nem devagar, conseguiu apenas ficar tonto. E se apavorou. Nunca sentira a cabeça rodar antes ! Pior ainda, nunca pensara a respeito disso. Nem a respeito de qualquer coisa que fosse ! Que estranho.

Além disso, não conseguiu atinar como pensar lhe podia ser útil. Mas como não conseguia parar de fazê-lo, deixou a idéia de lado e passou a dedicar seu tempo (assombrado claro, nunca imaginara que tivesse tempo) a descobrir o que estava acontecendo.

Sentou-se em meio aos travesseiros e olhou para as outras bonecas que o rodeavam. Chutou uma aqui, outra ali, esperando que elas respondessem. Mas talvez elas fossem tímidas, ou talvez, bonecas não tivessem o hábito de falar com qualquer um que as chutasse.

Depois de um bons minutos sentado, sem idéia alguma do que fazer, o boneco levantou-se. Cambaleou pelo colchão macio, tentando adquirir equilíbrio e observando o quarto onde estava. Além da cama, não havia outros móveis. A porta e a janela estavam fechadas, e a luz penetrava unicamente pelo vidro, vinda de uma estrela que ficava muito próxima a casa, suspensa por uma haste de concreto.

O boneco viu o pó, que pesava sobre seu corpo e sobre a cama, elevando-se no ar, devido à seus movimentos e sentiu que poderia espirrar a qualquer instante, se tivesse um

nariz, para tal.

Fosse pela idéia de espirrar, ou pelo fato de realmente possuir um nariz, possivelmente invisível, o boneco espirrou. E o fez com tal intensidade, que foi atirado de costas e rolou pela cama, a quase despencar lá de cima.

Recobrando-se de suas cambalhotas em poucos segundos e sentindo que o chão sob seus pés voltava a ser firme, o boneco refletiu que apesar de espirrar sonoramente, ainda não havia dito palavra. E curioso sobre a possibilidade de fazê-lo, recitou o seguinte:

Boneco de pano

Me diga seu nome

Vem pra ficar?

Ou aparece, brilha e some?

 

Boneco de pano

Rapazote levado

Já aprendeu a andar?

Ou continua tombando de lado?

 

Boneco de pano

Por hoje é vivo

Aproveita como pode

O ser da vida, cativo.

 

Boneco de pano

Já chega de drama

Encontra agora um jeito

De descer dessa cama.

 

Capitulo 2

 

Levado de volta a realidade pelas palavras finais de seu poema, o boneco perguntou-se mais uma vez, como poderia alcançar o chão de forma segura.

Não imaginava que fosse capaz de descer pelo lençol, pois pelo que se lembrava, nunca ouvira falar de um boneco que fora bem sucedido em semelhante empreitada. O mesmo se dava quando pensava em escorregar por uma das pernas da cama.

Cogitou até mesmo pular, de uma só vez. Mas o medo a respeito de uma coisa desconhecida, chamada morte, lhe impedia de levar a cabo sua idéia.

Não tendo, pois, qualquer plano de como proceder, sentou-se à beira da cama, com os pés a balançar. Ansioso pra que de alguma forma, esperada ou inesperada, uma resposta aparecesse.

-Não seja covarde ! – o boneco ouviu alguém dizer. E por um momento ficou apavorado. Não havia mais ninguém a vista e ele chegou a pensar que sua própria boca houvesse falado por livre vontade.

-Vamos molenga, pule ! – bradou novamente a voz, aborrecida com o susto do boneco. E esse percebendo que sua boca não poderia ser tão mal-educada, perguntou à voz misteriosa.: -Quem está ai?

-Eu – foi a resposta. – Aqui embaixo, perto do pé da cama.

Ao voltar-se pro lugar indicado, o boneco viu uma enorme ratazana. E ela lhe pareceu extremamente feia, embora não conhecesse muitas, pra poder dizer ao certo.

-O que faz ai embaixo? – inquiriu o boneco, curioso e até satisfeito, por ter com quem conversar.

-O mesmo que você ai em cima – retorquiu o monstrengo – Absolutamente nada. E agora desça logo daí.

-Mas como eu posso descer?

-Ora, que pergunta ! Pulando é claro.

-Pulando?! – e em dúvida o boneco coçou o queixo, por um momento. – E se eu morrer?

-Nesse caso não haverá problema. – disse o rato, já um pouco irritado – O problema é se você cair, se machucar muito e continuar vivo. Dizem que dói um bocado.

Concluindo que o rato tinha uma parcela de razão e confiante de que não se machucaria, por ser feito de pano e algodão, o boneco pulou. E pra um primeiro salto perigoso ele aterrissou de maneira espetacular. De cabeça no chão.

Suspeitando que tivesse morrido na queda, o boneco decidiu não se mover, afinal não sabia muito bem como um morto devesse se comportar.

-Ei molenga. – esbravejou o rato, cheio de raiva por aquela demora. – Vai ficar ai por muito tempo é?

-Só enquanto eu estiver morto – disse o boneco, esforçando pra não se mover muito.

O rato bateu na testa desanimado. Nunca vira ninguém tão tonto. E já tinha visto muitos humanos por ai. Mas sentindo-se um pouco culpado por aquela situação, esclareceu:

-Você não está morto.

-E como sabe?

-Simples. Se você estivesse morto. Haveria um monte de gente por aqui, chorando o quão boa pessoa você era em vida. E quanto pior o seu caráter, mais pessoas estariam aqui.

-Isso é estranho – concluiu o boneco, decidindo que realmente não estava morto, e pondo-se de pé.

-Não é não – rebateu o rato – São as regras.

Enquanto falava, o rato ia em direção a um enorme buraco, que havia na parede. E o boneco, sentindo-se indelicado, alcançou o rato e lhe estendeu a mão:

-Muito prazer – disse ele – eu sou o boneco.

-Não, não, não, não. Está tudo errado. – xingou o rato, movimentando os braços no ar, como se ofendido enormemente por aquelas palavras – Não é assim que se faz. Você tem que seguir as regras. Eu vou te mostrar.

Deu 3 voltas ao redor do boneco, alisou os pêlos da cabeça com a mão e falou, da maneira mais pomposa possível:

-Muito prazer. Eu tenho três bolachas, duas lasquinhas de madeira e 4 restos de queijo. E você, o que tem?

O boneco tateou a procura de algo nos bolsos, mas nem bolsos tinha. Pensou, repensou e não conseguiu pensar em nada. Ao cabo de alguns minutos respondeu, vendo a impaciência nos olhos do rato:

-Eu não tenho nada.

-Nada !?! – explodiu o rato, furioso – E eu perdendo meu precioso tempo com você ! – e súbito afastou-se sem esperar por mais detalhes.

-Ah! – exclamou o boneco, feliz por lembrar-se de algo. E o rato, interessado em que podia ser, parou pra ouvir.

-Eu tenho a minha vida.

-Não conta – atalhou o rato,  chateado. – vida não conta.

-E por que não conta?

-E ainda pergunta?! Vida não se hipoteca, não se aluga, nem se vende. Ou seja, não serve pra nada.

-Então não tenho nada – suspirou o boneco, diante de tantos argumentos.

O rato fitou o boneco por alguns segundos, e uma idéia estalou em sua mente.

-Já sei, já sei. Não fique triste, vou te ajudar. – E sem esperar que o boneco, ainda triste, respondesse o rato aproximou-se e de um só puxão, arrancou um dos botões que servia de olho ao boneco.

-Ei ! -berrou o boneco, tarde demais. – o que é que você está fazendo?

-Não seja resmungão – retorquiu o rato e devolveu ao boneco o olho que lhe tirara – pronto, agora você tem um botão.

-Não entendo a vantagem – disse o boneco, aborrecido – agora não tenho um olho.

-Mas você ainda é capaz de enxergar com um olho só. E poderá usar esse botão pra se tornar alguém. Vamos lá, experimente.

O boneco se sentia um pouco frustrado, um pouco desolado, um tanto desorientado, mas resolveu tentar, mesmo que só pra alegrar o rato:

-Muito prazer. Eu tenho um botão.

E o rato aplaudiu bem alto. Enquanto assobiava e corria de um lado pro outro, fazendo as vezes de uma grande plateia.

-Isso ! Isso ! – berrou satisfeito – Viva ! Ele tem um botão. É !!

Para o boneco aquilo não fazia muito sentido. E apesar da agitação do rato, tudo que ele conseguia fazer, era olhar tristemente para seu novo pertence, sem sentir que era alguém por tê-lo. Refletiu que talvez, um olho fosse pouco demais pra ser alguém.

-Eu ainda preferia ter dois olhos. -disse ele por fim.

-Como você é mal agradecido ! Ouça bem, vou te dar um último conselho, porque não estou aqui pra aturar sua ingratidão de graça e um botão não é o bastante pelos meus serviços. – e ao dizer isso o rato começou a se afastar, indo pelo buraco da parede. – Procure a terra dos cegos. Lá você poderá ser rei, e ainda terá um botão, com o qual presentear seus súditos.

Vendo que o rato caminhava depressa, e parecia disposto a ir mesmo embora, o boneco fez uma ultima pergunta:

-Como eu faço pra sair daqui?

-Passe por baixo da porta, e desça as escadas. Depois de outra porta, você estará na rua. -respondeu o rato, já fora de vista, caminhando por algum túnel escuro. – E cuidado pra não encontrar amigos mais caros do que você pode comprar com um botão.

O som dos passos do rato desapareceu rapidamente. E o boneco viu que estava novamente sozinho. Mas apesar de não conseguir explicar, sentia-se aliviado por isso.


Balas, Bebidas e Jogos de Azar

A luz da vela oscilava, atingida por uma corrente quase imperceptível de ar.

A pequena chama esforçava-se por iluminar o tampo de uma mesa e era insuficiente para deixar claro que sobre essa haviam três objetos: uma moeda, um copo redondo cheio até a metade de um liquido avermelhado e um grande revólver.

Sentado à mesa, imóvel, um homem. Fitava hora o revolver, ora a moeda e parecia não se importar com os cabelos desgrenhados e sujos que lhe caiam pelo rosto a bloquear-lhe em parte a visão.

Fosse possível ler-lhe os pensamentos e veria-se que eram tão tranquilos quanto a expressão apática em seu rosto. Nenhum remorso, nenhuma dor, nenhuma saudade. Só um vazio, insondável, insensível, inevitável, insuportável.

Com um movimento lento e até desinteressado, o homem apanhou a arma sobre a mesa, mas não conseguiu ergue-la de uma vez. Calculara mal a força. Num segundo impulso mais arrojado, foi bem sucedido em desprendê-la da mesa.
Refletiu que uma arma tão pesada não deveria ser de grande utilidade. No entanto, outro pensamento açoitou-o lembrando-lhe que aquele era o revólver que ele mesmo utilizara por diversas vezes, para os mais diversos fins. E era na verdade, extremamente bem balanceado e leve.

Deixando de lado as lembranças, o homem ajeitou a posição do braço e a pistola mirou-se contra sua própria cabeça.
Sem delongas ou indecisões, puxou o gatilho. O cão bateu-se no fundo do tambor vazio, sem resposta.

O instrumento foi recolocado sobre a mesa, enquanto um suspiro escapava por entre os lábios secos e desanimados.
Os olhos do solitário pousaram-se então sobre a moeda e ele a pegou.

-Cara – disse ao vazio, enquanto a moeda saltava e começava a girar no ar, rodopiando cintilante, à parca luz. Acabado o impulso caiu, bateu sobre a mesa, balançou por alguns segundos e parou. Mais um corpo, imóvel, sem vida. O resultado: cara…

Dentes rangeram e o inconformado apostador empunhou a arma novamente contra o crânio e disparou. Duas vezes. Mas novamente o cão não encontrou eco ao seu ladrar metálico.

O silêncio do ambiente pareceu ainda mais pesado. Frustrado, o atirador ergueu o braço e tentou novamente, mirando o teto. Bang ! O cheiro sufocante e o som do estampido de pólvora explodindo encheram a sala. Uma pequena lasca de laje caiu sobre a mesa.

Aborrecido, o homem deixou o revólver sobre a mesa. Bebeu de um gole o wisky e murmurou entredentes, mal humorado:

-Sorte maldita.

O vento assobiou pela janela, e a vela oscilante se apagou.


A Cabana da Bruxa

A tragédia se abateu sobre a cidade de Fanthar na forma de uma enorme onda de mortandade.

Primeiro, as colheitas murcharam nos campos, aniquiladas por um vento quente que chicoteava as plantações incessantemente.  Depois veio a praga, debilitando e matando uma enorme quantidade de animais. E por fim a morte, levando crianças e velhos durante a noite, sem um murmúrio sequer.

Um curandeiro que chegara a cidade pela mesma época fizera o possível para ajudar, doando gratuitamente pomadas e bálsamos para fortalecer os mais fracos e impedir que os dedos da destruição os tocassem.

Durante as primeiras semanas tudo que os cidadãos podiam fazer era rezar e tentar compreender que mal haviam praticado para que a vila fosse punida daquela maneira. Até que da boca de alguém veio a história de uma bruxa que vivia nas redondezas.

Os velhos se lembraram por fim daquela história que já não era mais contada. A história a respeito da chegada dos primeiros moradores do lugar e de como eles encontraram no bosque cadáveres que caminhavam, guardiões de uma mulher vista habitando solitária uma pequena cabana e que logo suspeitaram ser uma feiticeira.

Claro que eles nunca tiveram certeza a esse respeito, pois proibiu-se aos residentes da vila que fossem ao bosque. Muitos, na época, sugeriram que ela nem mesmo fosse construída ali, mas os mantimentos escasseavam e a terra era fértil, com um riacho cortando o vale próximo, e isso logo atraiu os colonos.

Mas o porquê de após tantos anos, a bruxa voltar seus olhos malignos contra eles ninguém sabia dizer. Muitas teorias foram traçadas e muitos dedos apontados, mas o que restava era o fato de que se nada fosse feito, a aldeia estava perdida.

– Vamos embora desse lugar maldito. – disse Clóvis, herói local. Homem forte e corajoso que havia ajudado a proteger o lugarejo contra mais de uma ameaça, mas que sabia não ter chance alguma contra feitiçaria.

– Simplesmente abandonar o lar que nossos antepassados derramaram suor e sangue para construir? – inquiriu ácido o prefeito. Um velho gordo e bem vestido, por nome Nabuco.

– Isso. Ou abandonamos nossas vidas – insistiu o outro.

O som da discussão elevou-se a dezenas de vozes desordenadas, algumas concordando com a fuga, outros com a permanência. Alguém que não estivesse envolvido naquela balburdia perceberia facilmente que dali resposta alguma surgiria.

– Com licença – a voz do homem soou clara e alta, fazendo calar as demais. Era o curandeiro. Vestido de negro e usando ao rosto a tradicional mascara de corvo dos médicos. – Sei que não sou habitante local e não deveria me intrometer numa decisão que cabe a vocês, mas já andei por muitos lugares e gostaria de dizer o que penso.

“Essa bruxa, se é bruxa, deve ter despertado de um longo sono e só agora começa a mover suas forças negras contra vocês. Se a confrontarem agora, enquanto está debilitada, podem certamente vencer.”

Algumas vozes concordaram e um burburinho de aprovação se espalhou pelo enorme salão da prefeitura. “E quanto aos guardiões dela?” perguntou alguém. “Não devem ser muitos” foi a resposta otimista que se propagou pela sala.

O ânimo dos homens havia mudado. A chance de enfrentar aquela bruxaria antes invisível face a face os enchia de força e coragem. Queriam vingança, queriam justiça e mais que tudo não queriam deixar sua terra para trás.

– São apenas suposições – era Clóvis, ainda não estava convencido – Se estivermos errados ela pode nos destruir a todos ou sua hoste demoníaca pode ser maior que nossa força e nos aniquilar.

O fogo abrandou. A opinião daquele que era considerado o mais forte da cidade valia de muito. Durante toda a tarde os homens continuaram a debater qual seria o curso de suas ações, mas nada decidiram além de que deveriam chegar a um consenso no dia seguinte.

Quando todos se retiravam para suas casas, um homem de cabelos brancos e olhos tristes se aproximou do tal curandeiro, que se nomeava Bartolomeu e perguntou, um pouco constrangido:

-Senhor, como anda minha filha? Desde que foi com você aprender um pouco de sua pajelança não voltou para casa e estou bastante preocupado.

O sorriso do outro era tranqüilizador e amigável: – Não pense sobre isso. As artes são difíceis de serem dominadas e ela precisa se concentrar ao máximo. Logo estarão todos juntos novamente.

O velho aceitou a resposta sem muita confiança e implorou para que ela fosse bem cuidada.

O curandeiro chegou a sua cabana quando a noite começava a se desdobrar no céu. O lugar era simples. Uma mesa, um caldeirão, uma esteira e algumas velas, que foram acesas de imediato mas que pouco faziam para iluminar o local.

Livre da pesada mascara que lhe cobria o rosto durante a maior parte do dia Bartolomeu relaxou. Suas feições ocultas pela escuridão que resistia a fraca luz das velas.

Do lado oposto do pequeno aposento uma garota jazia sentada. Não era bonita nem feia, apenas ordinária. Os grandes cabelos negros caiam até a cintura e tinha no rosto um olhar sonhador. Se notara a chegada do homem nada dissera, apenas permanecera ali, como que num transe profundo. De uma pequena tigela a sua frente subia um vapor denso e fedorento que também parecia não lhe incomodar.

Manteve-se imperturbável até mesmo quando o curandeiro deitou-se sobre ela e a penetrou com indiferença, depositando dentro dela o semem pegajoso e podre após algumas poucas estocadas, recitando palavras de algum idioma há muito tempo esquecido e deixando-a ali, de pernas arreganhadas e vestido levantado.

Naquela noite clara um monstruoso visitante caminhou pelas ruas de Fanthar. Não que pudesse ser visto por olhos humanos a menos que desejasse. Mas se o fizesse poderia levar a loucura o mais resistente dos homens, pois era impossível dizer onde lhe começavam os olhos e terminava a boca. Ou o que lhe eram braços e o que lhe eram pernas, se é que as tinha. Toda sua figura era distorcida e negra.

A criatura procurou. Rondou pelas casas farejando. Por onde passava os cães gemiam, os corvos que se apinhavam sobre os telhados grasnavam e as pessoas sentiam, sem ver ou compreender, que a morte estava próxima.

Súbito a coisa parou. Encontrou o que desejava. Atravessou a pesada porta de madeira sem nem ao menos tocá-la.

Dentro da casa simples um homem sentado à mesa, a mão apoiada no queixo, se perdia em reflexões sombrias e temia por toda aquela gente. Sentiu um calafrio quando a anomalia passou perto de si, mas não se deu conta do que era.

No cômodo ao lado uma mulher dormia. Seu sono era desassossegado e num instante transformou-se num pesadelo terrível quando a besta tocou-lhe a face. Um suspiro escapou pelos lábios da moça e com ele sua vida. Clóvis, o homem à mesa, nada ouviu.

Antes que o sol se levantasse no horizonte e o sino da cidade acordasse os moradores, o gritos furiosos de um homem enlouquecido o fizeram. Os primeiros que chegaram a casa viram o valente defensor da cidade debruçado sobre o corpo da mulher, ora chorando compulsivamente, ora bradando maldições aos quatro ventos. E mais de uma hora se passou, até que conseguissem arrastá-lo dali para que pudesse descansar.

Muitos acreditavam que o futuro do vilarejo estava diretamente ligado ao de Clóvis. Sendo ele o único combatente real na cidade, sua ajuda era imprescindível e por isso, ao descobrirem que sua mulher morrera e o estado em que ele se encontrava, o cochicho do medo se espalhou pelas ruas.

Quando ele reapareceu, o rosto transformado numa máscara de indiferença e totalmente vestido para a guerra o espírito quebrantado daquela gente explodiu em esperanças novamente. Estavam tão fragilizados que qualquer mudança no ar poderia levá-los da melancolia ao êxtase em segundos.

A multidão se reuniu em frente a prefeitura. Clóvis, como a estátua de um guerreiro lendário se erguia no meio deles, sem se mover, perdido em seus próprios tormentos.

– Vocês queriam lutar – disse ele por fim – e eu queria fugir. Não havia entendido a dor de suas perdas e a agonia em seus corações. Mas agora eu entendo. – sua face adquiriu uma expressão desconsolada por apenas alguns instantes – Vamos destruir a bruxa que decidiu brincar com nossas vidas. Vamos enviar sua alma podre de volta ao inferno!

Aquelas palavras fumegaram por entre as pessoas e em poucas horas estava tudo preparado para a sinistra empreitada que fariam bosque a dentro.

O grupo era composto por dezesseis camponeses robustos e valentes, a maioria moços. Além deles, Clóvis, o curandeiro e a garota  que estivera vivendo com ele. Quando a viu, seu pai se aproximou comovido.

-Filha, a quase um mês não temos noticias suas. Está tudo bem?

A resposta da garota, que tinha ainda o olhar distante e perdido foi um leve aceno de cabeça.

-O que ela tem? O que fez com ela? – perguntou o velho, raivoso, para Bartolomeu.

-Não fiz nada senhor. Sua filha esta apenas se concentrando, pois logo estaremos em meio a uma batalha e as habilidades que ela tem aprendido comigo serão úteis.

– Mas… mas… ela nem ao menos me responde!

– Ela tem se focado bastante em seu aprendizado. Dê um tempo a ela. Quando voltarmos tudo ficará bem.

O homem aceitou as palavras do outro, que tinha um jeito de falar amigável e que parecia estar sorrindo sempre, por debaixo daquela máscara sinistra.

Partiram para o bosque ainda antes do almoço. Conforme avançavam por entre as árvores um teve inicio um balbuciar aflito. Se preocupavam com o que encontrariam adiante e se conseguiriam lidar com aquela situação. Sabiam que não havia mais volta e não queriam voltar. Estavam apenas assustados.

Após uma caminhada de duas horas adentrando as regiões que eram evitadas por gerações, os homens se agitaram. Haviam chegado a uma pequena clareira. Espalhados pelo lugar viam-se figuras humanas, trajando armaduras de couro, saiotes do mesmo material e elmos enfeitados com crinas de cavalo pintadas de vermelho.

Não poderia se dizer se estavam vivos ou mortos, se eram reais ou ilusões. De pé, eretos, não se moviam, nem pareciam respirar. A pele que se via pelos vãos das armaduras era cinzenta e sem viço.

Por um tempo os aldeões apenas observaram, indecisos de como prosseguir. A respiração de seus companheiros era tão ruidosa que esperavam que a qualquer momento fossem ouvidos e atacados, se é que as coisas podiam se mover.

– Alguém deveria checar – sugeriu o curandeiro.

– Cale-se – retorquiu Clóvis – Por enquanto temos a vantagem da surpresa. Vamos dar a volta e nos aproximar por trás deles, se eles são de alguma ameaça poderemos liquidá-los rapidamente, pelas costas.

O grupo começou a se mover o mais silenciosamente possível. Ladeavam o estranho “acampamento” quando todo o plano desandou.

– Atacar! – ouviu-se gritar entre os camponeses. E tomados de surpresa os homens saltaram do mato e avançaram. As criaturas, alertadas pelo barulho os esperavam.

Clóvis tentou em vão fazer os homens recuar. O assalto fora rápido demais. Antes de ele próprio arremeter-se para o combate, baixou um olhar cheio de ódio sobre o curandeiro, autor da ordem precipitada.

Uma batalha violenta teve inicio. Os soldados que protegiam a clareira eram lentos e lutavam sem motivação. Eram treinados, no entanto. E mesmo apunhalados uma, duas, três vezes ou mais, continuavam a lutar.

Entre os aldeões, Hupert, filho do ferreiro tombou primeiro. As mãos sobre a barriga não puderam conter o sangue ou as tripas.

Mais dois homens caíram, a cabeça fendida e o pescoço lacerado.

Clóvis saiu vitorioso do embate contra um dos guardas, não pode matá-lo, mas arrancou-lhe fora os braços e o colocou fora da peleja.

Outros caíram de ambos os lados. Alguns camponeses feridos pediam por socorro e procuravam pelo curandeiro e sua ajudante, que não podiam ser vistos em parte alguma.

Ao ouvir o primeiro choque de armas Bartolomeu se esgueirou pela clareira e chegou ao outro lado, seguido de perto pela garota apática. Encontrou uma pequena trilha que levava a outra clareira, menor. Uma pequena cabana no centro.

Mal atravessara a trilha quando um rugido o fez parar. A enorme besta coberta de pelos amarelos e adornada por uma coroa de pelos vermelhos se aproximava rapidamente.

Antes que o leão os alcançasse o curandeiro empurrou a garota na direção da fera. Ela não protestou, nem tentou resistir. Apenas caminhou languidamente até tombar sob o enorme peso do animal que saltara sobre ela.

As mandíbulas da fera se fecharam ao redor de seu pescoço e arrancaram um enorme naco de carne. O sangue jorrou, negro.

Derrotada a presa, o leão ergueu seus olhos para o outro intruso que permanecia imóvel. As patas do animal se firmaram no chão para um salto, mas vacilaram, ele caiu. Tentou se por de pé novamente, caiu mais uma vez. Morto. A bocarra aberta e os olhos esbugalhados.

O homem seguiu seu caminho, desviando-se do corpo da mulher e da fera. Tudo tinha corrido conforme planejara até agora. Conforme lera nos velhos pergaminhos que encontrara há algum tempo, por isso abriu a porta e adentrou a cabana, sem medo.

Era uma residência precária, apenas um cômodo. Mas um luxuoso altar, coberto de seda e esculpido em ouro destacava-se no centro da habitação. Sobre ele um livro velho, surrado e carcomido. O livro parecia brilhar levemente com uma luz própria.

– Olá – disse uma voz jovem e feminina.

Totalmente obcecado pelo livro, o homem esquecera de que haveria ali uma moradora. Recuperando-se do susto, voltou-se para a mulher, a menina, pois aparentava pouco mais de 16 anos, apesar de ele saber que tinha não menos de duzentos.

– Você é tão encantadora quanto dizem os relatos – foram suas primeiras palavras. E retirando do rosto a máscara sorriu para ela. – Na minha imaginação as santas são sempre velhas feias e tristonhas.

O rosto daquele homem, coberto por uma barba espessa e bem negra, marcado por olhos sombrios e um sorriso quase permanente nos lábios já haviam sido avistados aqui e ali por todo os reinos do continente. Tão freqüente quanto o riso que trazia eram a destruição e a miséria que pareciam seguí-lo por toda parte.

– Acho que sabe por que eu estou aqui. – continuou ele.

A garota olhou para o livro e voltou a encarar o recém chegado.

– Sim, eu sei – respondeu – mas creio que você também saiba que não posso entregá-lo.

– Presumi que diria isso.

Num salto o homem alcançou a mulher e com uma adaga em punho cortou-lhe o pescoço.

Um sorriso, mistura de piedade e inocência, foi a única resposta da dona da casa. Enquanto ele, aturdido, fitava o lugar onde cortara, ou pensara ter cortado e de onde sangue algum escorria, nem ferimento algum se mostrava.

– Não perca seu tempo tentando me matar – disse ela por fim. – Eu sou a guardiã do livro da Profecia, escolhida pelos seguidores do grande profeta para mantê-lo a salvo até o fim dos dias.

– Eu ouvi sobre isso – retorquiu o outro se recompondo. – Mas esperava que essa parte fosse exagero. Provavelmente o fato de que ninguém mais além de você poder tocar o livro também seja verdade.

– Exatamente. Além de mim, só aquele a quem eu julgar digno de continuar minha tarefa.

– Poderia me conceder tal honra?

– Você vem até aqui, coberto da negrura da culpa e da maldade, tenta me matar e ainda tem a ousadia de perguntar algo assim? – Não havia indignação ou violência na voz da jovem, apenas curiosidade.

– As pessoas pensam de maneiras diferentes – desculpou-se ele. – Não há nada que eu possa fazer para convencê-la?

A garota pensou por um tempo. Seus longos cabelos loiros caiam até a cintura e seu corpo, magro e ossudo, escondia-se sob um pesado vestido de algodão encardido e coberto de poeira, mas chamava a atenção do visitante.

-Qual o seu nome? – perguntou ela por fim.

– Alguns me chamam Bartolomeu, outros Grimm. Pode escolher o que preferir.

– Grimm. Combina mais com você. – afirmou – Bem, Grimm. Que tal ir embora e voltar quando sua alma não for esse poço de sombras que é atualmente?

– Acha que isso é possível? – perguntou ele, sem nenhuma convicção.

– Acredito que não. Mas é o mínimo que poderia pedir de você.

Ele estava desolado. Durante meses pesquisara a respeito daquele livro e de como chegar até ele. Mais tarde precisara se infiltrar naquela pequena vila, como curandeiro, para poder ficar mais próximo de seu alvo. Por fim, espalhara sorrateiramente boatos sobre a bruxa que vivia no bosque e recorrera a feitiços poderosos para levar destruição a cidade, conseguindo assim ajuda dos moradores.

Tudo por nada. Sabia que contra aquela crente seus feitiços seriam inúteis, da mesma forma que não podiam afetar diretamente aqueles que a protegiam. Ela não sentia dor. Nem medo. Não poderia ser torturada. Nem coagida. Parecia a ele injusto que depois de tanto trabalho, não pudesse receber a recompensa merecida.

E ela continuava com aquele sorriso bobo no rosto. Zombando dele. Provavelmente pensando em quão infantil fora toda aquela empreitada. Não estava certo. Se ele não podia causar-lhe dor, pelo menos deixaria nela a marca da vergonha.

Sem dizer palavra caiu em cima dela, derrubando-a no chão. A principio ela pareceu um pouco confusa, mas entendendo qual o intuito do homem começou a se debater.

– Me solte. Tire as mãos de mim. Vá embora daqui, seu monstro! Se afaste! – gritava ela enquanto esforçava-se para se livrar do aperto dele. Mas Grimm era mais forte que ela e a dominara com facilidade.

Seus lábios amassavam os dela com beijos debochados, antes que ela virasse o rosto e continuasse a gritar. Suas mãos apertavam-na por toda parte. Esmagando seios e coxas e glúteos e virilha.

Ela lutava. Sentia ódio. Vergonha. Horror. Lutava com todas as forças. Mexia-se o mais que podia tentando afastar-se daquele toque nefasto, daqueles beijos cruéis. Não conseguia.

Viu-o erguer suas saias e rasgar-lhe a roupa intima sentindo um misto de humilhação de raiva. Sentiu-o penetrar por entre suas pernas e destruir sua virgindade com uma explosão de fúria quase conseguiu tirar-lhe de cima dela. Quase.

Ele estava satisfeito. A expressão de horror nos olhos dela o deleitava. Mesmo sabendo que sem o livro seus planos nunca dariam certo, aproveitava o momento.

Ela resistiu tanto quanto qualquer mulher normal faria. Esperneou, lutou, berrou, tentou morder, tentou gritar. Mas ela não era uma mulher normal.

Inesperadamente a confusão tomou o lugar da fúria em sua mente. Aquilo era totalmente abominável, humilhante e mau. No entanto, após séculos tendo por companhia apenas a indiferença ela podia sentir. Ódio e ressentimento, sim, mas sentia. E pela primeira vez em muitos anos deu-se conta de que estava realmente viva e não apenas preso em alguma espécie de sonho apático.

Presa entre aquelas duas situações impossíveis que se abatiam sobre ela: o desespero de estar sendo violentada e o júbilo de perceber-se viva e humana, a mulher mal percebeu os pequenos espasmos que aconteciam pelo seu corpo até que o roçar áspero do membro de Grimm em suas intimidades a fez gemer.

Os músculos se contraíram em espasmos cada vez mais fortes e os pensamentos racionais, bons ou maus, deram lugar a delícia de uma sensação nunca experimentada antes.

Contorceu-se e rangeu os dentes. E quando não podia mais se conter gemeu num gozo único.

No momento em que o prazer tomava conta do corpo da mulher Grimm a viu envelhecer até apodrecer, bem diante dos seus olhos. E perplexo tentou entender o que acontecia. Quando descobriu, gargalhou. Riu alto, sozinho, sentado no chão de terra da cabana, abraçado às cinzas e a poeira.

A castidade fazia parte dos votos daquela velha em corpo infantil. Aceitar o prazer era trair esse voto e despedaçar a crença que a sustentava viva.

Curioso ele ergueu os olhos ao livro. Esse não emitia mais aquele estranho brilho. Gargalhou novamente e durante algum tempo continuou sentado, satisfeito com o desfecho bem afortunado daquela situação.

De posse do livro Grimm deixou a cabana. Passando pela clareira onde guardiões e camponeses haviam lutado notou que não restava ninguém de pé. O corpo de Clóvis se encontrava em meio a quatro soldados, retalhado por diversos ferimentos.

Quando voltou a cidade, estava novamente mascarado e descreveu a triste batalha e como apesar dos pesares tinham logrado derrotar a bruxa, foi saudado como herói e homenageado. Os mortos foram chorados, os corpos recolhidos e enterrados. Um monumento foi erguido em sua memória.

E naquela mesma noite, sob o manto da escuridão, o bravo curandeiro partiu.



Nadando com Tubarões

Não era um dia especialmente ensolarado. Mas o vento estava bom, soprando carinhoso as velas dos diversos navios que se encontravam no porto de Grona. A grande cidade era conhecida como um território de trégua, onde piratas sob as mais diversas bandeiras podiam se encontrar sem medo de confronto. Claro que a possibilidade de uma escaramuça não estava descartada, mas a guarda local era rigorosa e conhecida por sua brutalidade com infratores.

A tripulação do Céu Carmesim estava ansiosa para ir a terra. Fazia dois meses que tudo que viam era água e apesar de não ser, nem de longe, o maior período em que estiveram no mar, era reconfortante esticar os ossos fora do navio.

Por esse motivo, todos os marujos amontoados no convés torciam secretamente, ou abertamente, para serem escolhidos pela capitã, Carmem.

Ela, uma mulher jovem de cabelos curtos muito negros e olhos castanhos tinha a pele morena do sol e os lábios rosados. Falava com suavidade, mas séria, raramente sorria, se o fazia era para mostrar os dentes brancos e uma graça que alguns julgavam impossível naquela face endurecida pelo vento e a chuva. Tinha conquistado seu lugar como capitã por meio tanto da espada quanto da diplomacia e embora não fosse a melhor espadachim a bordo era uma lutadora astuta e contava com o apoio das figuras mais aterrorizantes da tripulação.

Havia Roxxar, homem forte de uma tribo de guerreiros. Era grande e musculoso, se destacava mesmo entre os seus, fosse pela força, pela ferocidade ou pelo peculiar gosto por homens bonitos. Vestia-se com roupas leves de marujo e mantinha os enormes cabelos loiros bem penteados e limpos. Tinha os lábios coloridos de vermelho e os olhos pintados de azul.

Outro era Danke, o inútil. A maioria dos capitães o atiraria para fora do navio por ser totalmente imprestável e preguiçoso. Incapaz de ajudar com um esfregão, aproveitava o tempo na cidade para festejar com mulheres e bebidas. No entanto, em meio ao perigo ele se mostrava indispensável. Era frio como um demônio e em situações onde a maioria dos homens se perderia em prantos ou desespero era capaz de agir racionalmente.

Sobre Heitor pouco poderia se dizer. Um velho calvo de bigodes espessos que ia com Carmem a toda parte e que apesar de sua aparência inofensiva nunca havia se ferido durante combate algum.

Muitos outros eram a brava gente do Céu Carmesim, mas foram esses que a capitã escolhera para levar consigo pela cidade naquele dia. Seria uma parada rápida e apesar da frustração de não serem escolhidos, muitos se sentiam intimamente felizes por não precisarem participar daquele encontro com Bartolo, o agiota.

– Não podemos passar em algum bordel no caminho, querida capitã? – perguntou Danke tão logo chegaram em terra.

-Você já sabe minha resposta, imprestável. – respondeu ela – Não podemos perder tempo aqui e não quero contribuir com sua fama de “ladrão de corações”.

A verdade é que apesar de não ser excepcionalmente bonito, o pirata era um boníssimo mentiroso e por onde quer que passassem deixava garotas suspirantes com suas histórias a respeito de ser um grande nobre, cheio de posses e títulos.

-Alguém tem que ser macho nessa tripulação. -retorquiu ele, dando um olhar maldoso para Roxxar, que era carinhosamente chamado de Roxxane pela tripulação.

-Ih, querido. – atalhou o enorme homem – Você não sabe o que é ser macho até ter um brutamontes lindo entre os braços.

Trocaram mais algumas alfinetadas enquanto caminhavam, mas sempre mantendo o bom humor. Haviam passado pelo diabo juntos e sabiam que entre si havia uma amizade sincera.

Conforme se aproximavam da enorme mansão que era a residência do agiota todos se sentiam um pouco angustiados e ao mesmo tempo eufóricos. Haviam precisado de uma enorme quantia de ouro para comprar um navio, após sua antiga nau, o “Andarilho da Espuma”, ser destruído em um combate que custara a vida de muitos membros da tripulação. Quitariam agora a dívida e a sensação que preenchia seus corpos era aquela que antecede a concretização de um sonho.

-A partir de agora – disse Carmem, colocando em palavras o sentimento do grupo – velejaremos livres novamente. Veremos a beleza que se esconde nas ilhas mais remotas do mundo e desfrutaremos das suas maravilhas.

– Eu, por mim – era Danke – me contento com sossego e belas mulheres.

-Você se contenta de ter onde dormir, Danke – disse Roxxar.

-Verdade. Podemos dizer que eu sou uma pessoa pouco ambiciosa.

Pararam. Haviam chegado até os portões da grande casa. Tomando a dianteira Carmem falou com os guardas. Um deles atravessou todo o pátio entrou na casa e voltou dizendo que eles deveriam esperar e que dentro de minutos seriam recebidos. Nesse meio tempo podiam aproveitar pra se desfazer de suas armas, deixando-as sob a guarda dele próprio. Sabendo que não tinham opção fizeram o sugerido.

O tempo se arrastava. Nenhum dos presentes entendia aquela demora. Do seu ponto de vista era simplesmente entregar o dinheiro e partir. Simples assim. Nem conseguiam conversar entre si, como se as palavras houvessem escapado para outras bandas a fim de não tomar partido naquela angustiante espera. Apenas Heitor continuava tranquilo. Ele, alias, parecia sempre tranquilo. Como um monge que atingiu a plenitude.

Depois dos longos minutos que se passaram um outro guarda trouxe a notícia de que podiam entrar. O grupo atravessou os grandes portões e caminhou rapidamente até a porta de entrada. Atravessaram-na intrépidos e deram no enorme salão de entrada que era também o escritório suntuoso de Bartolo.

Este, com um rosto marcado pela crueldade e a cobiça estava sentado a uma enorme mesa. Comia solitário uma refeição que daria pra três ou quatro. Atrás de si cerca de 12 homens fortes, vestindo coloridas roupas de seda, mas desarmados montavam sua guarda pessoal. Mas era a figura de um enorme minotauro, criatura homem e touro, ameaçadora e poderosa, quem garantia o respeito de todos que ali entravam.

– Muito boas tardes – disse ele, limpando os dedos engordurados com a boca. – Estão atrasados um mês. Achei até que teria de enviar alguns homens para lembrá-los de suas obrigações.

-Nós sempre cumprimos nossas obrigações, Bartolo – respondeu Carmem com uma pitada de desprezo na voz. – E trouxemos ouro o bastante para cobrir os juros pelo atraso.

-Maravilhoso ! – exclamou o homem – E onde esta toda essa riqueza?

Roxxar deu um passo a frente e colocou a pesada mochila que trazia às costas sobre a mesa. Um dos guardas tomou-a. Não conseguindo ergue-la sozinho foi auxiliado por outro homem. Ambos despejaram o conteúdo a frente do agiota.

Moedas de ouro em abundância, taças cravejadas de brilhantes, pedras preciosas. Havia no interior da mochila o bastante para pagar por dois barcos, mas a tripulação havia concordado em ceder toda aquela riqueza para evitar problemas. Não queria qualquer tipo de ressentimento numa das poucas cidades onde podiam se sentir em casa.

-Esplêndido, esplêndido. Sempre soube que emprestar dinheiro a mais bela capitã desses mares seria um bom negócio.

-Ótimo – retorquiu a mulher – Considere então que nossos negócios estão concluídos.

-A menos que você tenha mulheres pra vender -emendou Danke. E sorriu para Carmem quando ela o olhou com fogo nos olhos.

-Na verdade, pequeno bufão. – Bartolo tinha nos lábios um riso frio, maligno. – Recebi pela sua capitã e pelo bárbaro afeminado ofertas irrecusáveis.

Com um aceno de mão, o minotauro e os homens atrás dele formaram um círculo ao redor dos piratas. O ser bovino tinha os olhos fixos em Roxxar, provavelmente fora instruído a enfrentar o homem, pois a força deste era reconhecida por muitos. Avançou na direção dele. Enquanto os homens esperavam para ver quem lhes restaria por adversário.

Uma bota voou. Atingiu em cheio as narinas enormes do minotauro. Furioso a besta desviou seu olhar e viu Danke, homem pequeno e debochado, rindo enquanto segurava a outra bota. Cego de raiva esqueceu seu alvo original e estourou contra o outro. Apesar do ventre um pouco largo o pirata era veloz e desviou agilmente da criatura. Com movimentos calculados afastava a besta dos companheiros.

Os guardas, que tinham ordens prévias ficaram desorientados por um instante. Tempo bastante para o poderoso bárbaro que saltou sobre eles e com uma patada feroz derrubou dois de uma só vez.

Chamados à ação pela ofensiva do inimigo, os guardas arremeteram na luta. Oito contra o homem, dois contra a mulher. Bartolo praguejava vendo seu plano ir por água abaixo, mas confiava no poder do minotauro, que tão logo esmagasse Danke, derrotaria também Roxxar que atacado e seguro por todos os lados tinha dificuldade em golpear com a potência necessária. Esperneava e balançava os braços tentando se libertar.

Se movendo agilmente pelo grande salão Danke continuava a insultar a fera, fazendo-o de bobo. Mas o monstro era grande e a dado momento conseguiu encurralar o marinheiro contra uma parede.

-Pode vir vaca pintada – disse o homem com um brilho no olhar que fez a criatura parar. – Pode vir, mas tenha certeza de me matar, de outra maneira enfiarei meus dedos em seus olhos e os arrancarei da sua cara horrorosa.

O minotauro pareceu ponderar. Não temia por certo aquela pequena imitação de homem, mas sentia que talvez, mesmo sob o peso esmagador de seu punho, aquele rato se levantaria para morder-lhe a garganta e feri-lo de morte.

Por alguns momentos Roxxar sentiu-se impotente, mas o peso sobre si começou a diminuir e percebeu que era Carmem, que após derrubar seus antagonistas com golpes precisos no pescoço, viera em seu auxílio e utilizando-se as técnicas marciais que aprendera em Casvia incapacitava os inimigos rapidamente.

Com um dos braços liberto o gigante não teve dificuldades em arrebentar a mandíbula de um homem e partir o pescoço de outro. Antes que pudessem contar até dez, todos os guardas estavam no chão.

-Vá ajudar aquele imprestável – ordenou Carmem – antes que ele acabe morrendo.

A aberração taurina ainda debatia-se com a dúvida de atacar ou recuar quando sentiu uma pancada violenta. Atingida do lado esquerdo por um golpe de corpo todo de Roxxar o monstro cambaleou. Virou-se para o bárbaro e saltou sobre ele, satisfeito de enfrentar um igual e não uma monstruosidade que parecia não sentir medo de seu poder.

Atracaram-se então homem e fera. O pirata, gigante entre gigantes, bateu os punhos fechados contra a face bovina do outro e sentiu sua dureza. Os dedos pareciam trincar ao chocar-se com aqueles ossos poderosos. O minotauro por sua vez, reconhecia a força daquele que apesar da bizarra aparência era um bravo guerreiro. Ele era, no entanto, mais forte que o homem.

Desarmados, Carmem e Danke podiam apenas assistir enquanto o companheiro se debatia naquela peleja de morte. Viram-no agarrar, ser agarrado, bater-se e cansar-se.

O corpo de Roxxar doía todo. Como se estivesse a lutar contra uma terrível tempestade em alto mar. Não aceitava a derrota, mas sabia que era questão de tempo até ser totalmente subjugado pela besta. Agarrou-o então pelos chifres e num esforço hercúleo fez a fera curvar-se. Essa porém, tomando impulso ergueu-se novamente, demonstrando toda sua força.

Aproveitando o momento o bárbaro puxou contra si a fera. Usando a força do monstro contra ele próprio jogou-se de costas no chão e com um pé cravado na barriga do adversário o fez voar pela sala.

Não acostumado a ser arremessado do chão o minotauro caiu sem técnica e seu braço partiu-se sob o peso de seu corpo colossal. Quebrantado pela dor, ele não se levantou.

Carmem, vendo o companheiro a salvo, voltou seus pensamentos para Bartolo. Percebera-o se esgueirando pela sala ao ver seus homens caídos e imaginava quando ele voltaria com reforços. Notou, porém, que ele não havia deixado o local. Estava sentado no chão, mãos na cabeça cobrindo os olhos, murmurava frases sem sentido e tão baixo que mal podiam ser ouvidas. A seu lado estava Heitor a olhá-lo com indiferença.

-Vamos embora daqui- gritou a mulher. – os guardas do portão estão armados então provavelmente teremos de lutar.

E lutaram. Mas foi uma batalha rápida. Pois os guardas não esperavam por aquela fuga e a carga inicial de  Roxxar e Danke lado a lado, ferozes e desesperados, os pegara de surpresa. Deixaram suas posses para trás e correram o mais que podiam até alcançar o Céu Carmesim que zarpou rapidamente sem despedidas ou segundos pensamentos.

-Você precisa relaxar – a voz doce e musical de Lucia, linda menestrel de cabelos da cor do sol, era tão efetiva quanto suas mãos que massageavam as costas de Carmem para relaxá-la. – Mesmo que, de fato, Bartolo tenha aliados e eles queiram vingança, não somos assim tão importantes para que eles mobilizem uma força poderosa contra nós.

-Sim. Eu só estou frustrada – respondeu a capitã que partilhava a cama com a outra e deitada sob seu corpo delgado e macio descansava. – Tudo sempre foge ao meu controle.

-Não pense mais nisso. – retorquiu a loira com voz autoritária e com um puxão áspero fez a outra virar-se de frente pra ela. – Agora você está a salvo, estamos todos. E você vai se divertir.

Sem esperar por resposta Lucia beijou os lábios de Carmem e deitou-se sobre ela. Os seios de ambas se roçaram numa carícia involuntária e deliciosa. A que estava por baixo teve os cabelos puxados com força e gemeu de prazer. E ali, em meio as almofadas macias e cobertas de seda, na sala do capitão, elas se deliciaram uma da outra.

No convés Danke cochilava sob o sol. Roxxar olhava os próprios ferimentos da batalha contra o minotauro e sorria orgulhoso, enquanto o menino Tom cuidava dos hematomas com uma pomada misteriosa. Heitor olhava o mar, sempre calmo. Olga, a cozinheira, cantarolava enquanto preparava a ceia e todos os marinheiros descansavam, exceto por aqueles que estavam em turno de serviço.

E assim, numa tarde rubra, o Céu Carmesim velejou pelo oceano até encontrar o horizonte.


O Chacal do Vale

A viagem de Bern até Iniasa levara quase uma semana toda. Rubi estava exausta e se sentia imunda. Precisava de um banho, com certeza. O trajeto fora agradável, no entanto.

Durante o dia Grimm contava a ela lendas e histórias interessantes a respeito de diversos lugares e ela contava a ele sobre o que fizera em sua adolescência em Asnar e o porquê de ter sido expulsa por seus pais.

A noite dormiam juntos. Compartilhavam a barraca e seus corpos. Para Rubi era um momento muito aguardado, não apenas pelo prazer, mas também por ser um dos poucos momentos em que suas terríveis cólicas diminuíam.

Sobre o passado de Grimm ou seu destino ela pouco sabia. Sempre que perguntava algo a respeito ele desconversava, mudando o foco da conversa para uma diversidade de coisas diferentes.

Iniasa era uma vila pequena e agrícola. Os habitantes locais eram gente simples que temia o escuro e acreditava em todo tipo de superstição. Mas parecia haver algo de errado ali. Ou pelo menos foi o que pensaram Rubi e Grimm, já aos primeiros passos pelo lugar.

As mulheres tinham a expressão deprimida e sofrida. Andavam olhando o chão, pensando longe como se contando o tempo para que uma tragédia acontecesse. Já os homens estavam cabisbaixos, evitavam se olhar nos olhos, como se envergonhados da própria existência. Quando alguém sorria, logo engolia o riso, arrependido de tal ação.

-O que acha que está acontecendo? – perguntou Rubi, curiosa.

-Não faço idéia, mas não é problema nosso. – respondeu Grimm e continuou – Aquela casa grande ali me parece ser uma taverna, pode reservar um quarto enquanto eu tento conseguir um cavalo e uma carroça?

-Carroça? Pra que? – Rubi, sempre muito interessada, questionava sobre tudo.

-Não havia me dado conta de que, talvez, ao longo dessa viagem eu vá estar carregando um monte de tralha. – sorriu – Me espera lá, tudo bem?

Meio-dia. O sol queimava impiedoso no céu, mas sua luz mal fazia para trespassar as espessas nuvens que vagavam pelo ar, naquele dia. Sobre o teto da estalagem, um corvo grasnava.

Atravessando a porta Grimm pode observar que o lugar era bastante humilde. Duas mesas, ambas vazias, e um balcão pequeno compunham o salão principal. Uma escada levava aos quartos e uma porta, provavelmente a cozinha.

Com um aceno e um sorriso Grimm chamou a atenção da atendente e cumprimentou-a, muito polidamente, elogiou o lugar, apesar da simplicidade e perguntou por Rubi. Soube que ela tinha saído após reservar um quarto. Pediu por comida, carne, queijo, vinho.

Enquanto esperava, aproveitou pra questionar a garota a respeito do sentimento de melancolia que percorria a cidade. A resposta foi um simples “Não sei do que esta falando, está tudo bem”. Ao longo da manhã por todos os lugares onde passara procurando por uma montaria a resposta fora semelhante, isso o intrigava, mas não tinha tempo pra se preocupar com isso.

Terminara de comer e limpava o rosto e a barba quando Rubi entrou no recinto e sentou-se a sua frente. Sorria de orelha a orelha e olhava Grimm como o gato que olha o rato pensando em quanto tempo vai se divertir com ele, antes de devorá-lo.

-A julgar pelo seu rosto – disse ele – acho que encontrou uma mina de ouro ou o elixir da vida eterna.

-Ah – ela agia como uma menininha ingênua e simplória de novo – eu descobri porque as pessoas estão cabisbaixas. Mas não quero te incomodar com o assunto. Como você disse, não é problema seu.

Notando a curiosidade cintilando nos olhos do homem ela continuou: – Mas é uma coisa tão interessante. Macabra, cruel, mas interessante.

-Então me diga de uma vez!

-Pra quê? Não é algo que possamos resolver.

-Tem razão – concordou Grimm – é melhor esquecer o assunto.

-Tudo bem, tudo bem. Eu conto – decidiu a garota vendo que ele não morderia a isca.

-Há alguns meses atrás – começou ela – um padre novo chegou à cidade. O antigo tinha morrido de velhice parece. Depois de algum tempo por aqui, o novo sacerdote começou a exigir coisas um tanto embaraçosas das mulheres, dizendo que era uma prova de deus e que aquelas que não se submetessem seriam consideradas impuras, bruxas e seriam sacrificadas. O tempo foi passando e hoje o tal padre faz todo tipo de atrocidade com as mulheres daqui e os homens, com medo da punição divina não se levantam contra ele.

-Que tipo de atrocidades? – perguntou Grimm vislumbrando uma sorte inesperada.

-Pelo que me disseram, ele as obriga a se submeter a diversos tipos de perversão sexual. Elas são amarradas, chicoteadas, objetos esquisitos são enfiados em seus corpos, são obrigadas a beber urina. Tudo. Todo tipo de depravação. – Rubi estava séria agora. Apesar de se divertir com o tema, não conseguia se sentir indiferente ao relatar o que mulheres, como ela, sofriam.

-Interessante .

-Interessante? É nojento, perturbador. – Mas Grimm não respondeu. Perdido em pensamentos parecia considerar possibilidades.

De súbito, ergueu-se sobre a mesa e beijou Rubi, o que a assustou pois apesar de dormirem abraçados e fazerem sexo todas as noites, ele não demonstrava nenhum tipo de intimidade ou carinho especial por ela.

-Vou terminar de resolver uns assuntos pendentes e logo estarei de volta. – disse Grimm, já caminhando para a saída, deixando a garota perplexa, atrás de si.

Saiu para o dia, que se compunha basicamente de um céu acolchoado e corvos, que soturnos observavam a tudo de cima dos telhados das casas. Assobiava uma canção desafinada e imaginava se a providência estava a seu favor ou se o destino armava armadilhas para destruí-lo.

A igreja era grande. Feitaem pedra. Ocalor do sol qual conseguia adentrar o local. Grimm teve de abrir a grande porta principal, ao chegar e fechou-a atrás de si. Por um momento julgou que estivesse sozinho, mas então surgiu o padre ao fundo do templo, saído da sala reservada aos sacerdotes.

-A porta estava fechada porque ainda não é hora dos serviços, meu filho. – disse o homem. Era um homem grande, de cabeça e rosto nus, queixo largo e voz grave. Vestia um habito preto tradicional.

-Desculpe, sacerdote – respondeu Grimm se aproximando – mas cometi um pecado mortal e preciso de perdão.

-E o que fez, meu filho? – O olhar do homem tinha um quê de sádico, estava sempre curioso para saber do mal que outros faziam.

-Matei um homem dentro da igreja. – enquanto falava Grimm se adiantou sobre o padre e tomou seu pescoço entre os dedos. Apertou com força.

Tomado de surpresa o homem não reagiu imediatamente. Sentia as mãos se afundando em sua carne, o ar lhe faltava. Em segundos, tudo escureceu.

Abrindo os olhos com dificuldade, Grimm sentiu a cabeça estalar. Uma dor aguda atravessou seu cérebro que parecia ter se rachado. Demorou algum tempo até perceber que o padre, que se encontrava a sua frente, mãos no pescoço tentando aliviar a dor do aperto, lhe atingira com um chute extremamente forte no rosto o que lhe derrubara e o deixara desnorteado.

Grimm estava assutado. Pego de surpresa por aquela resistência se culpava por não ter vindo preparado. Colocou-se de pé o mais rápido que pode e apontou a mão na direção do outro, murmurando algumas palavras.

Magia ! – gritou o padre.

Um passo largo para frente e um tapa no rosto com as costas da mão foram o bastante pra desconcentrar Grimm e fazê-lo cambalear. A joelhada seguinte retirou o ar de seus pulmões e o fez cair de joelhos, novamente.

Era evidente que o sacerdote era um combatente experiente. Os próximo golpe, uma martelada com as mãos, na nuca do outro provavam isso, ao mesmo tempo que levavam o bruxo a inconsciência.

Quando recobrou a consciência, Grimm sentia os braços dormentes, estavam atados sobre sua cabeça e presos a uma corda que mantinha os pés dele fora do chão. Todo seu corpo doía. O sangue brotava aqui e ali em seu rosto ferido.

– Contrataram alguém para matar a mim – disse o padre, que parecia estar a espera do despertar de seu novo prisioneiro – e não avisaram a ele quem eu era. Muito esperto.

-Contratado, eu? Estou aqui pela diversão. – retorquiu Grimm tentando, em vão, sorrir.

-Pois bem. Vai ter sua diversão. E eu terei a minha.

Em meio a uma séries de instrumentos estranhos que haviam sobre a mesa da pequena sala para onde Grimm havia sido levado havia um flagelo. E tomando-o em mãos o sacerdote deixou claro que faria uso dele.

-Aprecie bem, pequena Ana – disse o homem, se dirigindo a uma garota que se encontrava no canto da sala, sentada, encolhida e tão silenciosa quanto um túmulo. Os olhos da moça estavam inchados de lágrimas e os pulsos vermelhos e marcados. Provavelmente era ela quem estivera amarrada ali, até bem pouco tempo – É assim que trato quem me aborrece.

As lâminas do chicote estalaram contra a carne das costas de Grimm arrancando lascas de pele e gordura. Sangue surgiu. Um sangue escuro, fétido, o cheiro da putrefação dos corpos. Mas o padre não percebeu. Eufórico que estava, focava-se apenas em infligir dor.

-Vou lhe contar uma história – disse ele, entre uma chibatada e outra – há alguns anos um bando de salteadores dominava o norte dessa região. “Os Chacais do Vale” era como nos chamavam. Eu era o líder do grupo. O medo que provocávamos nas pessoas era tanto que chamaram um regimento inteiro de soldados reais para nos combater. Claro que fomos derrotados e assim, tive que fugir e acabei encontrando nesse disfarce de sacerdote uma ótima desculpa. Mas estava com saudade da adrenalina. Sua pequena tentativa de assassinato me relembrou velhos tempos e por isso te matarei lentamente, um presente.

O sangue se espalhava por toda a parte. Um lago negro sob os pés de Grimm. Ele riu. Não pode evitar. A despeito da dor que sentia e dos incessantes golpes, ele riu.

-Engraçado – disse ele com a voz cortada – Eu pretendia presenteá-lo matando-o rapidamente. Nossas idéias de como gratificar alguém não são as mesmas.

Por um instante a poça de sangue no chão tremulou. Como a água de um lago que ondula quando um peixe se aproxima da superfície. Após uma pausa moveu-se novamente, com mais intensidade. E de novo.

Baltazar, “O Medonho”, como era conhecido o sacerdote em tempos idos, descansava o braço, ávido para recomeçar sua pequena festa particular. Grimm aproveitou o momento para murmurar as únicas palavras que poderiam lhe tirar daquela situação.

“Meu sangue é a passagem que procuras

O carrasco é a vítima que necessitas

A morte é a recompensa que buscas

Vem, oh andarilho escarlate.”

Ana estava acostumada com a dor e o sofrimento. Desde a chegada do padre na cidade ela era, como as outras, usada por ele em todo tipo de humilhação sexual e mesmo antes dele, seu pai já a molestava. Se sentia tão miserável que não se imaginava capaz do sentimento que a invadiu ao notar os movimentos daquele liquido asqueroso. Pavor absoluto.

O sangue, que inicialmente se convulsionara lenta e esparsamente, passara a borbulhar e ondular como um mar revolto. Até que se rompeu como uma bolha e de seu interior surgiu o medo.

Baltazar que se perdera em devaneios sobre sua vida passada acordou ao perceber um sibilar vindo do canto onde Ana estava. Ele viu nos olhos dela um medo que ele próprio nunca fora capaz de causar. Intrigado voltou-se para onde ela olhava. Gelou. Aquele homem bravo, cruel e poderoso sentiu a urina escorrendo pelas pernas. Tentou gritar, correr, fechar os olhos. Não era possível. Seu corpo não lhe obedecia. Apenas as lágrimas pareciam ter força para correr e deslizar pela sua face.

A coisa, saída de um pesadelo ainda não sonhado, avançou sobre o homem. E quando aquelas presas, garras ou o que quer que fosse aquilo perfuraram a carne e quebraram os ossos, Baltazar finalmente conseguiu gritar um horrendo último suspiro.

Já anoitecia quando Grimm voltou a taverna. Rubi estava encantada com o lugar e já havia se utilizado de suas artimanhas para arrancar um pouco de dinheiro dos locais. Inquisitiva quis saber onde ele estivera, mas ele não respondeu. Tão pouco falou sobre o pequeno saco que couro que trazia consigo e que parecia conter alguma coisa pequena, do tamanho de um coração, talvez.

Naquela noite, a revoada de corvos que parecia ter migrado para a cidade não foi incomodada pelo som do sino da igreja, indicando o início da missa. E pelas ruas da vila a notícia se espalhou rápido. O padre havia partido. Na igreja haviam encontrado rastros de sangue e a pobre Ana, que fosse lá o que havia sofrido não parecia mais capaz de falar, apenas fitava o vazio e balbuciava continuamente palavras desarticuladas como “sangue” e “morte”.


Até Nunca Mais

O sol já se punha no horizonte, colorindo o céu de escarlate e levando consigo o calor do dia. A vila de Bern permanecia ali, a sombra das montanhas. A passagem mais segura pela cordinheira espinhosa que separava as terras de leste e oeste do continente.

Fundada centenas de anos antes, o lugar nunca havia crescido demais, afinal a vida ali era difícil. A plantação era sempre ruim, os animais sempre fracos e não havia tanta gente assim interessada em cruzar o continente.

Naquele fim de tarde, tão insignificante quanto qualquer outro, um viajante chegava a vila vindo do oeste. Subia  a longa ladeira até o portão da cidade assobiando desafinadamente uma canção sem sentido. Sua barba longa, unhas por cortar, roupas encardidas e grande mochila que carregava sugeriam que era alguém vindo de longe. Indo pra longe, provavelmente.

Antes mesmo de cruzar os portões toda a cidade já se interessava por ele. As senhoras já diziam a boca pequena que ele não parecia boa pessoa. Que havia algo de misterioso a respeito dele e que quanto mais rápido partisse, melhor.

-Olá – cumprimentou o recém chegado, escancarando a boca num sorriso simpático, tão logo um rapaz jovem de cabelos loiros e olhar curioso, se aproximou dele – que bela vila vocês tem aqui.

-Muito obrigado, senhor – disse o moço, o ego inflado por aquele elogio inesperado. – Fazemos o possível para manter tudo perfeito. – e após uma pequena pausa perguntou – o que podemos fazer pelo senhor?

Ficava claro pela atitude do garoto que ele era alguma espécie de guarda da cidade, inspecionando os que vinham de fora e dando a eles direções e quem sabe, avisos.

-Estou apenas de passagem por está noite – respondeu o outro – se puder me indicar uma estalagem.

O jovem loiro, chamado Martin, estava encantado com o visitante. Era ainda seu primeiro mês como guarda local e aquele sorriso, o elogio e algo em seu olhar, faziam o viajante parecer extremamente simpático aos olhos dele.

-Claro, claro. É só seguir por ali – apontou – A “Bom Repouso” é nossa única taverna, mas é muito confortável  e te receberam bem. Aliás, qual seu nome?

-Me chamam Grimm. Obrigado pela ajuda.

“Bom Repouso” era realmente um nome apropriado. O ambiente dentro da estalagem era aconchegante. O cheiro de comida fresca e vinho se espalhavam pela grande sala repleta de mesas e apesar do silêncio mortal que recaiu sobre o lugar assim que o viajante passou pela porta, via-se que havia muita gente ali. Provavelmente boa parte da cidade freqüentava a taverna pra se distrair e conversar.

Aos poucos o som do ambiente foi retornando. O estranho a porta sorria candidamente. Passeava o olhar pelo sitio e acenava com a cabeça. Os olhares embaraçados dos presentes se fixava então em outra coisa qualquer. Um prato, um copo, uma outra pessoa já conhecida.

Aparentemente imune a paralisia provocada pela chegada do homem, uma mulher jovem se aproximou e apontou graciosamente uma mesa onde ele poderia se sentar.

Ele era velho apesar de aparentar não mais que trinta anos. Havia visto muitas mulheres, muitas mesmo. Muitas mais bonitas que a moça que lhe falava agora, mas ainda assim não pôde deixar de perceber aqueles olhos negros, os cabelos ruivos cortados ao ombro, a pele muito clara e as roupas leves de algodão que cobriam seios pequenos e firmes e um corpo magro, um pouco pontudo, mas atraente.

Após sentar-se Grimm pediu por um copo de vinho, sopa, pão e queijo. Comeu um pouco, bebeu um monte. Quem quer que o olhasse encontrava um sorriso e olhos brilhantes. Os que eram menos tímidos e lhe dirigiam a palavra recebiam saudações amistosas em troca e perguntas sobre o cotidiano.

A noite já ia alta. O lugar estava bastante deserto e a garçonete limpava as mesas. O dono do lugar, um homem de meia idade de cabelo cortado rente e bigodes fartos aproximou-se do visitante e sentou-se ao seu lado com um “Bem vindo” saltando da língua.

-Muito obrigado. – respondeu Grimm – o senhor não parece estar muito apreensivo com a minha presença, como a maioria estava.

-Ah – disse o velho e por um momento pareceu que era tudo o que ia dizer, mas completou após rememorar anos cuidando do lugar em sua memória – as pessoas aqui são desconfiadas. Mas eu estou acostumado com viajantes. Converso com todos. A maioria é gente muito esforçada, muito infeliz, vagando por motivo ou outro pra longe de casa.

-Entendo. Percebi também –  confiou a barba grossa que carecia de corte – que você é uma espécie de conselheiro aqui. Não pude deixar de ouvir as pessoas te perguntando sobre o que fazer.

O estalajadeiro riu. – É isso mesmo. Algumas pessoas dizem que eu sou uma espécie de guru das pessoas da vila. Mas é apenas porque vivi muitos anos fora e vi muita coisa.

-Sei o que quer dizer. E a moça? Quem é?

-Minha sobrinha. Rubi. – o homem de bigode relanceou um olhar melancólico para a menina – a família dela a mandou pra cá faz um tempo. Ela é muito boa moça, mas faz coisas um pouco idiotas.

-Como todas as moças. – completou Grimm. Ambos riram. Conversaram mais um pouco a respeito da vida das pessoas do lugar e o velho contou que vivia na própria taverna, indicou o quarto e tudo. Despediram-se após um tempo.

Lugar interessante, pensava Grimm enquanto tirava as botas, já sentado na cama. Provavelmente a garota ruiva bateria a sua porta dentro de alguns minutos. Ele havia farejado nela o aroma da sexualidade, além de um perfume suave de rosas e visto naqueles olhos aparentemente tão ingênuos, a ganância.

Foram vinte minutos até que ele ouvisse alguém bater a porta. Ele abriu. Era ela. A camisola meio aberta deixava ver uma parte dos seios e as coxas. Ele perguntou o que era e ela disse que talvez ele ainda precisasse de algo. Ele disse que não sabia do que poderia precisar. Ela respondeu, qualquer coisa. Alguma Sugestão? Não. Nada? Não e se não precisa de nada eu vou me retirar.

Ele riu: – Acho que preciso sim – disse meio se desculpando. – Entre, pode ficar a vontade.

Ela entrou e sentou-se a cama, olhando para o chão, fingindo timidez e incerteza com maestria.

-Você dorme com todos os hospedes?

-Ora ! Do que você está falando? – perguntou ela irritada.

-Não precisa mentir pra mim – foi a resposta – Vamos lá, você deve querer conversar com alguém a respeito de quem você é de verdade.

Ela riu. A mascara se desfez e ele viu olhos astutos e sedutores. Lábios risonhos e cheios de volúpia.

-Você é chato. Por que não me deixa bancar a menina do interior?

-Desculpe. Você me parece mais interessante que uma garota qualquer.

Conversaram um pouco. Ela contou sobre seus sonhos. Casar-se com alguém rico, matar o marido talvez e viver pra si mesma. Ele se divertia. Enquanto ela falava ele lavou a barba, lavou o corpo e ficou nu.

-Quer viajar comigo? – A pergunta pegou a mulher de surpresa e deixou-a assustada.

-Como assim?  Eu nem conheço você.

-Hm. Posso garantir que não vou te fazer mal e que quando minha viagem terminar você vai ter dinheiro suficiente pra fazer o que quiser da vida.

-Não sei. – respondeu ela, mordendo os lábios, indecisa. Estava com medo, mas tentada. Qualquer promessa envolvendo dinheiro sempre a tentava. E a verdade é que ela era um espírito livre, adorava aventura, perigo, queria ver o mundo e desfrutar dele.

-Façamos assim. – propôs  Grimm – terminamos o que temos pra fazer na cama, dormimos e amanha você me responde.

Sem esperar por resposta ele se atirou sobre ela. Beijou-a. Assustou-a. Arrancou a camisola fina rapidamente e apertou-a com os dedos firmes. Ela sentiu os seios sendo esmagados. Os mamilos beliscados. Sentiu dentes em seu pescoço, em sua orelha. Sentia tudo.

As mãos dele percorriam o corpo dela agora. Deslizavam pelas costas. Apertavam as nádegas. Ela se sentia como nunca se sentira antes. Como se estivesse enfeitiçada, ela não conseguia resistir. Esforçava-se para não gritar enquanto os dedos dele, ágeis e duros invadiam o vão entre suas pernas e se melecavam dentro dela. Passeavam por todos os seus orifícios. Gemeu quando a boca dele se fechou ao redor de seu seio e mordeu com força. Gritou, por fim, quando ele a penetrou. Fundo e sem piedade.

Suava. Gemia. Ardia. Não conseguia pensar, desejava que aquilo parasse, desejava que continuasse. Apenas desejava. Apenas sentia. Não respirava. Desmaiou. Exausta.

Grimm deixou o corpo da mulher cair sobre a cama, levantou-se e foi até sua mochila. Retirou de lá 2 tubos de ensaio. Voltou até a cama. Rubi estava deitada, nua, estirada de pernas abertas. Ele derramou o conteúdo de um dos frascos sobre a garota.

Uma pequena serpente ou verme rapidamente percorreu o corpo da mulher e desapareceu entre o vão das pernas dela. Ela nem ao menos se moveu.

Faltavam poucas horas para o amanhecer, ele precisava se apressar. Vestiu-se , guardou o outro frasco em um pequeno bolso da calça e saiu do quarto. Foi bater a porta do dono da estalagem.

O velho abriu a porta sonolento, um pouco assustado. Queria saber se tudo estava bem, se o hóspede precisava de ajuda. Mal teve tempo de se surpreender quando as mãos do viajante envolveram seu pescoço e o apertaram com força, até que tudo parasse de se mover.

Grimm puxou o corpo do homem pra dentro do quarto e fechou a porta. Passou o trinco. Sacou uma pequena faca que trazia consigo e começou a partir o corpo do homem em vários pedaços pequenos. Arrancou as entranhas e jogou-as num canto.

Começou a mastigar e comer os pedaços de carne e osso. Seus dentes haviam adquirido uma forma pontiaguda e sua boca parecia maior do que o normal. Demorou cerca de uma hora para engolir todo o corpo.

Sua barriga estava inchada. Enorme. Ele suava. Bebeu então todo o conteúdo do frasco que trazia consigo. Sussurrou algo que ninguém, além de si mesmo poderia ouvir enquanto deslizava a mão sobre o ventre.Vomitou. Vomitou uma massa disforme de ossos, sangue e carne. A mistura hedionda se espalhou pelo quarto. E Grimm caiu de joelhos, fatigado.

Aos poucos aquela imundice de carniça começou a convulsionar e se mover. Após longos minutos o velho se reerguia de seus próprios restos. Seu olhos estavam diferentes, no entanto. Uma chama azul brilhava no fundo das orbitas.

-Que prazer em revê-lo mestre – disse o velho, dirigindo-se a Grimm, que se colocava de pé.

-Já faz um bom tempo desde a ultima vez, não? Deixe-me respirar um pouco e vou lhe explicar como você me servirá dessa vez.

O dia já nascia quando Grimm deixou o quarto do velho e voltou a seus próprios aposentos. Rubi ainda dormia e ele teve de acordá-la a força.

– Estou de partida. Decidiu-se?

-Nem tive tempo de pensar na verdade. Não deveria ir. Meu tio não vai gostar.

-Já resolvi com ele – disse o homem, sorridente. – Se quiser vir troque-se e arrume-se. Você tem meia hora.

-Isso é tão estranho. -a mulher se sentia estranha, sentia o mundo todo mudando – Tudo parece absurdo demais. Mas eu vou. Sinto que devo ir.

Grimm se afastou rindo em segredo.

Partiram naquela manhã e durante todo aquele dia e pelos próximos, Rubi se queixaria de cólicas horrorosas.